Paulo Sotero – O Estado de S. Paulo, 11/12/2012
No fim de semana anterior às disputadíssimas eleições que deram o segundo mandato ao presidente Barack Obama, na última terça-feira, cenários de pesadelo preocuparam os analistas da grande imprensa americana. Em meio à polarização política que ameaça a governabilidade do país, e chegou ao paroxismo durante a interminável e caríssima campanha eleitoral deste ano, eles temeram que o pleito terminasse num empate no colégio eleitoral dos 538 chamados grandes eleitores que, constitucionalmente, escolhem o presidente do Estados Unidos. Num dos cenários, Obama e seu desafiante republicano, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney, acabariam com 269 votos cada um. As eleições, nesse caso, seriam decididas pela próxima legislatura do Congresso, a de número 113, que tomará posse no próximo dia 3 de janeiro, como manda a Constituição. A Câmara dos Representantes elegeria o presidente e o Senado, o vice. Como se previa que os republicanos continuariam no mando na Câmara e os democratas manteriam a maioria no Senado, como de fato aconteceu, os deputados elegeriam Romney para a presidência, os senadores confirmariam o vice-presidente Joseph Biden no cargo e a desgastante divisão que sufoca a política americana há quase duas décadas se instalaria na própria Casa Branca.
Outro cenário que preocupou os analistas até tarde na noite do dia 6 foi a inversão dos resultados da eleição popular e do colégio eleitoral. No envenenado ambiente da política americana – no qual narcisistas bilionários como o empresário e personalidade de televisão Donald Trump alimentam a mentira segundo a qual Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos e não é, portanto, elegível à Casa Branca -, a inversão certamente ajudaria a alucinada direita republicana a levantar dúvidas sobre a legitimidade do presidente. Ocorreu quatro vezes na história do país, em 1824, 1876, 1888 e no ano 2000. No episódio mais recente, o vice-presidente Albert Gore, democrata, ganhou a votação popular por uma diferença de 543 mil votos num total de mais de 104 milhões. No entanto, o republicano George W. Bush recebeu a maioria dos votos do colégio eleitoral depois de uma controvertida decisão por 5 a 4 dos juízes da Suprema Corte, que lhe deu a vitória na Flórida. Em 18 eleições desde 1824, o vencedor foi eleito sem receber a maioria dos votos das urnas.
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Coisa de americano
November 14, 2012Paulo Sotero – O Estado de S. Paulo, 11/12/2012
No fim de semana anterior às disputadíssimas eleições que deram o segundo mandato ao presidente Barack Obama, na última terça-feira, cenários de pesadelo preocuparam os analistas da grande imprensa americana. Em meio à polarização política que ameaça a governabilidade do país, e chegou ao paroxismo durante a interminável e caríssima campanha eleitoral deste ano, eles temeram que o pleito terminasse num empate no colégio eleitoral dos 538 chamados grandes eleitores que, constitucionalmente, escolhem o presidente do Estados Unidos. Num dos cenários, Obama e seu desafiante republicano, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney, acabariam com 269 votos cada um. As eleições, nesse caso, seriam decididas pela próxima legislatura do Congresso, a de número 113, que tomará posse no próximo dia 3 de janeiro, como manda a Constituição. A Câmara dos Representantes elegeria o presidente e o Senado, o vice. Como se previa que os republicanos continuariam no mando na Câmara e os democratas manteriam a maioria no Senado, como de fato aconteceu, os deputados elegeriam Romney para a presidência, os senadores confirmariam o vice-presidente Joseph Biden no cargo e a desgastante divisão que sufoca a política americana há quase duas décadas se instalaria na própria Casa Branca.
Outro cenário que preocupou os analistas até tarde na noite do dia 6 foi a inversão dos resultados da eleição popular e do colégio eleitoral. No envenenado ambiente da política americana – no qual narcisistas bilionários como o empresário e personalidade de televisão Donald Trump alimentam a mentira segundo a qual Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos e não é, portanto, elegível à Casa Branca -, a inversão certamente ajudaria a alucinada direita republicana a levantar dúvidas sobre a legitimidade do presidente. Ocorreu quatro vezes na história do país, em 1824, 1876, 1888 e no ano 2000. No episódio mais recente, o vice-presidente Albert Gore, democrata, ganhou a votação popular por uma diferença de 543 mil votos num total de mais de 104 milhões. No entanto, o republicano George W. Bush recebeu a maioria dos votos do colégio eleitoral depois de uma controvertida decisão por 5 a 4 dos juízes da Suprema Corte, que lhe deu a vitória na Flórida. Em 18 eleições desde 1824, o vencedor foi eleito sem receber a maioria dos votos das urnas.
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